Brasilienses aproveitam crescimento do carnaval e criam marcas de fantasia

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Brasilienses aproveitam crescimento do carnaval e criam marcas de fantasia

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Empreendedoras produziram tiaras, ombreiras, blusas, capas e saias com design próprio. Fantasias carregam os selos da autenticidade e do preço justo.

Roupas e acessórios de carnaval da marca Quero Borogodó, do DF (Foto: Letícia Marotta/Divulgação)

Roupas e acessórios de carnaval da marca Quero Borogodó, do DF (Foto: Letícia Marotta/Divulgação)

Cidade monumento, Brasília ganha uma nova cenografia durante o carnaval. Com as ruas ocupadas por bloquinhos e foliões durante todo o mês de fevereiro, a cidade transforma o brilho dos azulejos em purpurina nos rostos brasilienses. Neste cenário, coletivos de mulheres decidiram empreender e criaram marcas de fantasias e acessórios com design próprio.

A a jornalista Paula Rachid, de 22 anos, criou a Quero Borogodó junto com a mãe. Recém-chegada do Rio de Janeiro, onde morou nos últimos cinco anos, ela disse que sempre criou as próprias fantasias. Neste ano, não seria diferente. Exceto pelo fato de que, cada ideia que teve ganhou dezenas de reproduções.

 Tiara Carmen Miranda da marca Quero Borogodó, da jornalista Paula Rachid (Foto: Letícia Marotta/Divulgação)

Tiara Carmen Miranda da marca Quero Borogodó, da jornalista Paula Rachid (Foto: Letícia Marotta/Divulgação)

“O carnaval [de Brasília] tem sido muito mais legal que antes e tem um potencial enorme pra ser um palco lindo, porque os jovens daqui são motivados. A minha participação é contribuir para a cenografia”, disse Paula. Com a ajuda da mãe, que costurou a maior parte das fantasias, as duas desenvolveram looks completos para o carnaval.

A marca Orneishya – título inspirado no nome de um ornamento de cabeça usado por uma drag queen do reality show americano Rupaul’s Drag Race – foi criada pela estudante de antropologia Ludmilla Façanha, de 23 anos, e pela namorada, a jornalista Beatriz Ferraz, de 26. As duas projetaram tiaras – de banana, abacaxi, besouro e do planeta Saturno – e ombreiras que custam de R$ 20 a R$ 35.

 Tiara de abacaxi e ombreiras da marca Orneishya (Foto: Beatriz Ferraz/Divulgação)

Tiara de abacaxi e ombreiras da marca Orneishya (Foto: Beatriz Ferraz/Divulgação)

“A gente já tinha essa ‘pira’ com roupa, com moda. Sempre fizemos as nossas fantasias e estamos sempre produzindo coisas novas”, disse Ludmilla. Em outros carnavais, ela foi surfista e até pássaro. “O bom do carnaval é que te dá mais liberdade de expressão por ser um momento lúdico.”

Criada por três amigas arquitetas, a ideia da Patropi surgiu durante uma reunião profissional para discutir soluções de mercado. O carnaval entrou na pauta. “Nós já íamos fazer algumas tiaras para a gente, porque vamos passar o carnaval juntas. Como estávamos precisando de juntar dinheiro, resolvemos unir o útil ao agradável”, contou Isabella Souza, de 26 anos.

Economia criativa

Tiara de bezouro da marca Orneishya (Foto: Ludmilla Façanha/Divulgação)

Tiara de bezouro da marca Orneishya (Foto: Ludmilla Façanha/Divulgação)

Em meio à crise econômica, estas mulheres enxergaram no carnaval uma oportunidade para criar produtos autênticos a preços acessíveis. Sem nome de marca, as publicitárias Patrícia Corrêa, de 23 anos, e Maria Louiza, de 22, optaram pela publcidade do boca-a-boca e vendem os produtos pessoalmente.

A empreitada começou após uma busca frustrada por fantasias divertidas a preços baixos. “Achamos uma tiara simples de R$ 130 reais que era chifre, orelha e mais nada”, contou Maria Louiza. As duas resolveram, então, comprar os materiais e produzir as próprias fantasias. Tiara Unicórnio das publicitárias do DF Patrícia Corrêa e Maria Louiza (Foto: Patrícia Corrêa/Acervo Pessoal)

Tiara Unicórnio das publicitárias do DF Patrícia Corrêa e Maria Louiza (Foto: Patrícia Corrêa/Acervo Pessoal)

“A ideia inicial era fazer pra nós duas e mais seis amigas, mas sobrou muita coisa”, explicou Patrícia. Com o resto dos tecidos, elas fizeram cerca de 20 tiaras de unicórnio, flores e frutas pelo preço de R$ 30 a R$ 45.

Se, por um lado, a crise não deixou muitos brasilienses passarem o carnaval em outras cidades, por outro, está aquecendo as ruas de Brasília e movimentando o comércio local. Mais pessoas vão comemorar a data e gastar na capital – o GDF estima 2 milhões de foliões neste ano. Tiara sereia da marca Patropi (Foto: Camila Marinhoa/Divulgação )

Tiara sereia da marca Patropi (Foto: Camila Marinhoa/Divulgação )

Em 25 dias, a Patropi vendeu cerca de 350 tiaras pela internet. Os preços variam de R$ 40 a R$ 74.Para as criadoras, a resposta do público surpreendeu. “Começamos com algo que achamos que seria pequeno. Não imaginamos a proporção que iria tomar. Ficamos muito surpresas e felizes”, disse Ingrid Lopes, de 24 anos.

“Além do preço acessível e da originalidade dos adereços, a maior vantagem é que você vai pra rua e ninguém vai estar vestido igual”, destacou Paula, da Quero Borogodó, que vendeu 600 peças em menos de dois meses. “Eu pensei em um valor que eu toparia pagar. Carnaval é importante, mas é uma vez no ano. Você não vai gastar dinheiro com uma fantasia”, explicou. Tiara sereio da marca Patropi (Foto: Camila Marinho/Divulgação)

Tiara sereio da marca Patropi (Foto: Camila Marinho/Divulgação)

Busca por autenticidade

Para encontrar os tecidos e adereços desejados, foi preciso “garimpar” nas lojas do DF. Em alguns casos, as marcas tiveram de fazer encomendas pela internet. “Garimpamos por Brasília toda, do Taguacenter aos armarinhos do Plano Piloto. Nada se encontra em um só lugar”, contou Ingrid, da Patropi. Tiara Frida da marca Patropi (Foto: Caio Damasceno/Divulgação)

Tiara Frida da marca Patropi (Foto: Caio Damasceno/Divulgação)

Muitas referências vêm de outras capitais onde o carnaval faz parte da identidade local, como Rio de Janeiro e Olinda, e de estados como São Paulo, onde a produção cultural é intensa. “Ter referência é importante. Mas, mais necessário que isso é ter um espaço de desenvolvimento de ideias novas. Abrir espaço pra gente jovem fazer coisa nova”, disse Ludmilla.

“Acho que estamos em outro contexto histórico aqui [no DF]. A cidade é a irmã mais nova dessas capitais, mas tem muita gente antenada criando coisa nova e de qualidade por aqui.”

A Quero Borogodó produziu peças que, juntas, compõem um look e, sepradas, podem ser usadas em mais de uma fantasia. São tiaras, saias e tops, bodys, blusas e capas personalizadas. O carro-chefe da edição são os “pareôs” – saias de amarrar – que, segundo Paula, podem ser vestidos com blusa, top, body e até biquini. “Dá liberdade para ser criativo”, disse Paula. Conjuntos de paetê e tiras da marca Quero Borogodó, do DF (Foto: Letícia Marotta/Divulgação)

Conjuntos de paetê e tiras da marca Quero Borogodó, do DF (Foto: Letícia Marotta/Divulgação)

Para essas mulheres, imitar é pra quem não tem irreverência. “Somos muito jovens em uma cidade ainda muito conservadora. Sinto que as pessoas que criam estão fazendo resistência a isso”, disse Ludmilla.

Fantasia anti-machismo

Segundo Ludmilla, a Orneishya surgiu porque, por muito tempo, não havia a produção autoral valorizada na capital voltada às necessidades das mulheres. “As meninas começaram a enfiar o pé na porta e a produzir das ‘minas para a minas’, criando ambientes sem machismo.” Tiara Saturno da marca Orneishya (Foto: Beatriz Ferraz/Divulgação)

Tiara Saturno da marca Orneishya (Foto: Beatriz Ferraz/Divulgação)

“Queremos fazer pra gente, por nós. A Orneishya é voltada pra um lugar de empoderamento, especialmente no carnaval onde o machismo sempre imperou.”

Para as criadoras da Orneishya, a brincadeira de criar não deve parar quando o carnaval acabar. Ludmilla e Beatriz pretendem continuar o trabalho com foco em outros nichos de mercado. “Com certeza vem mais produção por aí. Fizemos o recorte de carnaval agora para testar. Como deu certo, pensamos em fazer outras coisas voltadas para a moda, como roupas e acessórios”, contou Ludmilla. Tiara de banana da marca Orneishya (Foto: Beatriz Ferraz/Divulgação)

Tiara de banana da marca Orneishya (Foto: Beatriz Ferraz/Divulgação)

Todas as marcas vendem os produtos pela internet e divulgam as imagens e contatos no Instagram. Algumas também organizaram eventos em casa e participaram de exposições e feiras de produtos artesanais. Neste sábado (18), a Patropi vende as tiaras até as 20h no Mercado Cobogó, na 704/705 Norte.

Fonte:G1


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